
Abner Luiz da Costa Ribeiro
Mestre em Ensino de História pela Unicamp
“Ocupar, resistir e produzir!” Esse foi o lema que mobilizou muitos trabalhadores nas últimas duas décadas na América Latina. Com greves e ocupações de fábricas em vários países do continente, os operários retomaram a produção em plantas industriais em crise ou processo de fechamento. Muitas dessas experiências reivindicaram um controle operário em seus locais de trabalho. No Brasil a maior expoente desse movimento foi a Fábrica Ocupada Flaskô, em Sumaré, na região de Campinas, São Paulo. Ali, durante quinze anos, os trabalhadores geriram autonomamente a produção da empresa.
A empresa Flaskô foi fundada em 2 de setembro de 1988. Em conjunto com as empresas Cipla e Interfibra em Joinville, Santa Catarina, pertencia ao Grupo Hansen Indústria S/A. Foi uma fábrica do ramo de plásticos que produzia bombonas e tambores para uso industrial. A partir da década de 1990, com a crise generalizada do ramo industrial, determinadas empresas do grupo começaram a não pagar suas dívidas e algumas delas entraram em situação falimentar ou com a penhora de máquinas e bens.
A situação se agravou em 2002, quando os trabalhadores da Cipla e Interfibra, submetidos a atrasos dos salários e sem direitos, decretaram greve e ocuparam a empresa passando a gerir a produção. Teve início então o Movimento das Fábricas Ocupadas (MFO) no Brasil, compreendendo, além das duas empresas citadas, a Flaskô, ocupada em 2003, permanecendo sob controle dos trabalhadores até 2018.
Ao longo das duas primeiras décadas do século XXI , mais de trinta empresas foram ocupadas e organizadas pelo MFO. As experiências foram curtas, como na Flakepet, que reciclava garrafas pet em Itapevi/SP, a empresa Ellen Metalúrgica, na cidade de Caieiras/SP, cuja fabricação de artefatos de material plástico foi relevante, e a Profiplast em Joinville/SC, também do setor plástico. Depois da intervenção federal na Cipla e Interfibra em 2007, a Flaskô se tornou a principal protagonista do movimento. No auge do processo, entre os anos de 2010 e 2012, os trabalhadores da fábrica tentaram auxiliar outros operários de empresas em situação semelhante que os procuraram para tentar construir a gestão operária. Com a paralisação da produção na Flaskô, no entanto, o movimento entrou em crise e encerrou suas atividades.
No ápice de seu funcionamento, a fábrica ocupada Flaskô era organizada em três turnos, com 70 trabalhadores no total e jornada de trabalho de 30 horas semanais, sem redução salarial. O trabalho na fábrica tinha um caráter singular, porque congregou várias lutas. Além da ocupação de fábrica, há uma ocupação de moradia no terreno (Vila Operária) que atualmente, depois de um histórico de disputas, encontra-se regularizada.
Diante do cenário complexo de manutenção da produção, muitas experiências optaram pela regularização via cooperativa, em que os operários se tornam donos da empresa, mas a Flaskô buscou outra saída. Os trabalhadores da fábrica ocupada em Sumaré tinham a noção de que, diante tanto das limitações contábeis e econômicas da empresa, quanto das restrições políticas e sociais da conjuntura, a luta principal se dava em torno da garantia dos seus empregos e direitos trabalhistas. Nesse sentido, a principal reivindicação do MFO era a estatização da empresa sob controle dos trabalhadores, de modo que a propriedade da fábrica seria regularizada e a gestão permaneceria operária.
A experiência da ocupação e do controle operário na Flaskô teve importantes impactos políticos e sociais na condução do MFO e nos movimentos sociais na região de Campinas. Diversas ocupações de moradia saíram do terreno da fábrica, como a Marielle Vive! em Valinhos e a Ocupação Zumbi dos Palmares na cidade de Sumaré.
Durante os anos de ocupação os operários produziram muitos documentos, como atas do Conselho de Fábrica, jornais, panfletos, revistas em quadrinhos, materiais de mobilização entre outros. Por meio do Centro de Memória Operária e Popular (CEMOP), criado por eles, esse acervo era armazenado e publicado em livros e revistas.
Desde o início, a experiência da ocupação sofreu com as pressões de outras empresas privadas, do Poder Judiciário, do Poder Executivo local e estadual, que buscava minar a gestão dos trabalhadores. Sem produzir por conta da falta de investimentos e capital de giro, dificuldades na compra de matéria-prima e um corte fatal de energia operado pela empresa CPFL, a produção entrou em colapso no mês de outubro de 2018.
A história da Flaskô foi permeada por incertezas, de fechamento, de reintegração de posse, de não pagamento dos salários, conflitos nas decisões das assembleias, dentre outros inúmeros aspectos. No entanto, o cotidiano foi profundamente marcado por uma intensa solidariedade entre os operários e também com a comunidade no entorno. As festas e os Festivais de Cultura também deixaram muitas marcas e boas lembranças para quem vivenciou de alguma forma essa experiência.
No ano de 2023, os trabalhadores da fábrica comemoraram vinte anos de controle sobre o espaço do parque fabril operário, mesmo sem a continuidade da produção e sob litígio judicial. Depois que as máquinas foram submetidas a leilão e o complexo industrial foi posto à venda, alguns poucos trabalhadores se intercalam na portaria para cuidar do patrimônio, evitando que este sofra vandalização.
Muitas foram as conquistas dos trabalhadores da Flaskô, a que mais se orgulham é de terem mantido os postos de trabalho com carteira assinada, fato que possibilitou a aposentadoria de muitos operários. A luta agora consiste na garantia que os trabalhadores recebam seus direitos que a gestão patronal não pagou, a necessidade de um uso social para as instalações da fábrica além da preservação da memória e da história da Flaskô.

Vista aérea do parque fabril da Flaskô, Sumaré (SP), 2010. Fotografia de Fernando Martins.
Para saber mais:
- DELMONDES, Camila. Flaskô: fábrica ocupada. Campinas: PUC Campinas, 2009.
- MUSTO, Rafaela. Fábrica em movimento. Sumaré: Edições CEMOP, 2012
- RIBEIRO, Abner. “Ocupar, resistir e produzir” em comum: luta operária e memória da Fábrica Ocupada Flaskô (2003-2018). Dissertação (Mestrado em Ensino de História) – Instituto de Filosofia e Ciência Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2025.
- VERAGO, Josiane. Fábricas ocupadas e controle operário: Brasil e Argentina (2002-2010). Sumaré: Edições CEMOP, 2011.
- ORRÚ, Drielly et al. Flaskô: donos do próprio suor. Youtube, 3 de abril de 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Lu9g8OjC4tU.
Crédito da imagem de capa: Deuzuito Miranda, membro do Conselho de Fábrica da Flaskô operando máquina, 2012. Fotografia de Fernando Martins.
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