Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Em uma modesta nota publicada no jornal Correio da Manhã, de 29 de dezembro de 1925, a Associação dos Empregados no Commercio (AAEC) do Rio de Janeiro vinha a público comemorar a sanção da primeira lei de férias aprovada no Brasil. A nota da AAEC foi publicada cinco dias após o presidente da República Arthur Bernardes sancionar o Decreto nº 4.982, concedendo 15 dias de férias remuneradas anuais aos empregados e operários de estabelecimentos comerciais, industriais e bancários, jornalistas, e de instituições de caridade e beneficentes. O decreto ainda estabelecia que o período de descanso pudesse ser concedido de uma só vez ou parcelado e previa multa de dois milhões de réis a quem infringisse a nova legislação. O valor era relativamente alto. A nível de comparação, na mesma edição do Correio da Manhã, uma casa com duas salas, dois quartos, cozinha, banheiro e chuveiro era anunciada por dezesseis milhões de réis.
Apesar de a nota da AAEC afirmar que a entidade lutava pela implementação de uma lei de férias há 15 anos, o recesso remunerado não era uma reivindicação prioritária da classe trabalhadora da época, que concentrava suas mobilizações na regulamentação da jornada de trabalho de oito horas e no aumento salarial. Importante salientar que, ao contrário das férias, o descanso semanal remunerado figurava como uma pauta antiga em alguns setores, como os comerciários, por exemplo.
Justamente por não ser uma bandeira dos trabalhadores é que as férias podem ter entrado na pauta da Câmara dos Deputados. A explicação pode estar no esforço dos parlamentares em evitar conflitos mais intensos entre os empregados e o empresariado, promovendo um direito que não era oriundo de pressões sociais com a chancela do Estado. Havia também o interesse dos deputados de patrocinar o benefício com o objetivo de angariar capital político junto aos trabalhadores.
Contudo, talvez a principal razão para que a lei de férias tenha sido aprovada esteja na tentativa das elites políticas de frear um conjunto mais robusto e amplo de leis do trabalho, fornecendo pequenos avanços sociais aos trabalhadores. Nesse sentido, é importante ressaltar que o direito às férias vinha sendo discutido na Câmara desde 1917 com a análise de um projeto de Código de Trabalho, apresentado na esteira da Greve Geral daquele ano. O texto não foi aprovado, mas deu origem à Lei de Acidentes de Trabalho, de 1919.
Em 1923, uma nova tentativa de elaboração de um código de trabalho voltou às discussões. Entre outros pontos, o projeto previa oito horas de trabalho diárias ou quarenta e oito horas de trabalho semanal; concessão de um dia de descanso semanal aos domingos; proibição do trabalho de menores de 14 anos e do trabalho noturno para mulheres; e férias de 15 dias. Assim como em 1917, a proposta de se elaborar um código de trabalho foi esvaziada, resultando em duas novas legislações específicas: a Lei de Férias, de 1925, e o Código de Menores, de 1926. Desta forma, o que seria um bloco coeso de regras que regulamentaria o trabalho no país, se tornou dois dispositivos pontuais.
O projeto da Lei de Férias foi apresentado pelo deputado carioca Henrique Dodsworth e discutido em uma comissão formada pelo também deputado Afrânio Peixoto e pelos secretários do Conselho Nacional do Trabalho (CNT), Lins Mario Poppe e João Lousada. O texto original concedia os dias de licença apenas aos comerciários e escriturários, mas ampliou o benefício também aos operários, causando reações da burguesia industrial brasileira.
O empresariado apelava para o moralismo na tentativa de barrar a análise do projeto, argumentando que a eventual aprovação da Lei de Férias incentivaria a ociosidade e a vadiagem no meio operário. Para o patronato, apenas os empregados do comércio deveriam ser beneficiados pela legislação.
Mesmo com a pressão empresarial, o texto foi aprovado no final de 1925 e levado à sanção presidencial. Apesar da evidente conquista, os trabalhadores não puderam gozar imediatamente do benefício. O dispositivo demorou quase um ano para ser regulamentado e, somente em outubro de 1926, as regras foram publicadas no Diário Oficial da União, por meio do decreto nº 17.496.
Durante o ano de 1926 diversas reuniões foram realizadas a fim de regulamentar a aplicação da nova legislação. Os encontros contavam com a participação de parlamentares, representantes do CNT, e de trabalhadores e empresários. Um anteprojeto foi apresentado sob a relatoria de Libanio da Rocha Vaz, representante dos empregadores, cabendo ao desembargador Ataulpho de Paiva a presidência dos trabalhos.
Um dos pontos de maior divergência tratava sobre a concessão dos 15 dias de férias aos trabalhadores demitidos nos últimos três meses do ano, desde que o motivo da dispensa não fosse por falta grave. Após acalorados debates, a redação final estabeleceu o pagamento dos 15 dias de férias aos empregados dispensados, desde que tivessem trabalhado no curso do 12º segundo mês.
O Jornal do Brasil, de 30 de outubro de 1926, noticiou que o presidente da República Arthur Bernardes sancionaria a regulamentação da Lei de Férias, no dia em que era comemorado o Dia do Empregado do Comércio.
Desta forma, em 30 de outubro de 1926 a Lei de Férias foi regulamentada, prevendo que as férias fossem sempre gozadas nos 12 meses seguintes ao que o empregado tivesse obtido o direito; proibindo desconto de faltas por doença ou por outro motivo de força maior; possibilidade de os dias serem concedidos de uma só vez ou parceladamente; estabelecendo que as férias deveriam ser concedidas na época que melhor atendesse o interesse da empresa; e que o pagamento referentes aos 15 dias deveriam ser pagos antes de o trabalhador entrar de férias, entre outros pontos.
Mesmo após regulamentada, a Lei de Férias ainda suscitava dúvidas sobre sua aplicação. A principal delas era sobre se a contagem para o gozo dos dias deveria considerar o decreto, de dezembro de 1925, ou a publicação no Diário Oficial, em outubro de 1926. Prevaleceu o entendimento de que o decreto seria o marco a ser aceito para os cálculos de concessão do benefício.
Outro aspecto importante da lei foi o fato de ela atribuir ao CNT a fiscalização da execução das regras recém-aprovadas, examinando os livros, fichas e cadernetas com os registros dos trabalhadores. Nos meses imediatamente seguintes à promulgação da lei, diversos casos começaram a chegar ao CNT, a maioria deles eram reclamações trabalhistas referentes às carteiras de trabalho. Muitos empregados buscavam o órgão argumentando que tiveram o benefício negado por não conseguirem comprovar o tempo de trabalho por meio dos registros nas carteiras de trabalho.
Em muitas situações, os empregados conseguiam ter suas contestações acolhidas. Além disso, os casos analisados pelo CNT começaram a formar jurisprudência trabalhista, como a pacificação do entendimento de que a demissão voluntária não acarretaria na perda do pagamento de férias.
Se a criação da Lei de Férias não foi uma prioridade dos trabalhadores, o mesmo não se pode dizer de sua aplicação. Com as regras regulamentadas, entidades sindicais passaram a pressionar patrões e autoridades para que a nova legislação fosse seguida. Em dezembro de 1927, foi fundado o Comitê Pró-Lei de Férias, na sede da União dos Operários em Fábricas de Tecidos (UOFT).
Nesse contexto, a UOFT foi uma importante entidade na luta pela aplicação da Lei de Férias, iniciando uma campanha para incentivar seus sindicalizados a reivindicarem o direito recém-adquirido. Em 1929, a UOFT saiu em defesa de 800 trabalhadores/as da Fábrica de Tecidos Botafogo que haviam sido dispensados sem receberem as férias a que tinham direito.
Mas o que parecia ser uma nova conquista sólida adquirida pelos trabalhadores não durou muito tempo. Em 1931 o Decreto nº 19.808 suspendeu toda a legislação anterior sob o argumento de que a Lei de Férias causava “confusão resultante das várias interpretações do aludido texto ocasionando constante desinteligência entre patrões e empregados ou patrões e operários”. Além de suspender a Lei de Férias, o decreto de 1931 determinava que as empresas deveriam conceder férias aos empregados que tivessem direito ao período até abril de 1932, retroativo a 1930, e que o recém criado Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio criaria uma comissão encarregada de elaborar um anteprojeto de reforma da lei.
Somente em 1934, por meio do Decreto nº 23.768, o benefício foi restabelecido com regras semelhantes ao que havia sido firmado em 1926. A principal mudança estava no artigo quarto, que condicionava a concessão das férias exclusivamente aos trabalhadores associados a sindicatos de classe reconhecidos pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. A medida estava em sintonia com a Lei de Sindicalização, aprovada em 1931, e com a investida de Getúlio Vargas de manter os trabalhadores e sindicatos sob a tutela do Estado.
Somente com a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, que o recesso anual remunerado passou a constar como um direito consistente na vida dos brasileiros que trabalham com vínculo formal de trabalho.
Hoje, as regras que dispõem sobre as férias estão presentes em diversos artigos da CLT, como o pagamento em dobro dos dias de descanso se ultrapassar o período concessivo, possibilidade de saída coletiva em até dois períodos no ano, possibilidade de “vender” até 1/3 do tempo de descanso e a obrigatoriedade de informar o período de descanso com 30 dias de antecedência. Mais recentemente, a Reforma Trabalhista, de 2017, criou a possibilidade de divisão do tempo de descanso em até três períodos e a proibição de as férias começarem dois dias antes de feriado ou do descanso semanal.
Desta forma, como pôde ser visto, o direito às férias foi um benefício forjado dentro da burocracia estatal e do legislativo brasileira, temoroso das pressões sociais do período. Embora não fosse uma agenda prioritária do sindicalismo, o não cumprimento da lei por parte do empresariado, logo se tornou mais um elemento de mobilização e luta por direitos por parte dos trabalhadores, em um contexto marcado por crescente efervescência política e social e pela intervenção estatal nas relações de trabalho. Ao longo dos anos, diversas legislações foram promulgadas, revogadas e alteradas. Sofreu resistências de industriais e empresários brasileiros e demorou até se tornar um direito solidificado aos trabalhadores. Contudo, hoje, é um benefício líquido e certo e favorece milhões de empregados e empregadas de todo o país.
Texto original da Lei de Férias, preservado no arquivo da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF. Foto: Rossini Gomes
PARA SABER MAIS:
GOMES, Ângela de Castro. Burguesia e trabalho: política e legislação social no Brasil 1917-1937. Rio de Janeiro: Campus, 1979.
GOMES, Ângela Castro. Cidadania e direitos do trabalho: descobrindo o Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
NUNES, Guilherme Machado. “A Lei De Férias No Brasil é Um Aleijão”: Greves E Outras Disputas Entre Estado, Trabalhadores/as E Burguesia Industrial (1925-1935). 2016. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/148964
PIRES, I. C. da S. As mulheres na União dos Operários em Fábricas de Tecidos: atuações, obstáculos e negociações (Rio de Janeiro, 1926 – 1930). Tempos Históricos, [S. l.], v. 26, n. 2, p. 274–307, 2022. DOI: 10.36449/rth.v26i2.28459. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/temposhistoricos/article/view/28459 . Acesso em: 12 dez. 2025.
POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca: trabalhadores no comércio (Rio de Janeiro, 1850-1920). 1a.. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 2007. 261p .
Crédito da imagem de capa: Em nota publicada no Correio da Manhã, de 29 de dezembro de 1925, a Associação dos Empregados no Commercio (AAEC) do Rio de Janeiro comemorou a sanção da primeira lei de férias aprovada no Brasil.
Maura Fabrícia Silva de Almeida (graduada em História pela Universidade Estadual do Piauí UESPI; Mestra em Ensino de História-PROFHISTÓRIA pela Universidade Estadual do Piauí- Parnaíba- Piauí).
Apresentação da atividade
Segmento: Ensino Fundamental: 9º Ano
Unidade temática: Trabalhadores Rurais, direitos sociais e cidadania.
Objeto de conhecimento:
– História Local e memória dos Trabalhadores Rurais;
– Os direitos sociais e os movimentos sociais.
Objetivos gerais:
– Promover o ensino de História Local através de uma perspectiva de movimentos sociais ao se evidenciar a participação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais enquanto sujeitos históricos;
– Relacionar as conquistas de direitos políticos sociais e civis à atuação de movimentos sociais;
– Incentivar que os (as) educandos (as) percebam quem são os sujeitos comumente apresentados nos conteúdos de História e quais são silenciados ou meramente inseridos como coadjuvantes. Ressalta-se, nesse âmbito, a invisibilidade conferida aos trabalhadores e trabalhadoras rurais no processo histórico barrense e dos movimentos sociais locais.
Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC).
(EF09HI01) Descrever e contextualizar os principais aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos da emergência da República no Brasil;
(EF09HI02) Caracterizar e compreender os ciclos da história republicana, identificando particularidades da história local e regional até 1954;
(EF09HI06) Identificar e discutir o papel do trabalhismo como força política, social e cultural no Brasil, em diferentes escalas (nacional, regional, cidade, comunidade);
(EF09HI09) Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.
Aulas
Planejamento
01
Etapa 01
02
Etapa 02
03
Etapa 03
04
Etapa 04
05
Etapa 05
06
Etapa 06
07
Etapa 07
08
Etapa 08
Duração da atividade: 08 aulas de 50 minutos
Conhecimentos prévios:
Noções sobre cidadania, direitos sociais, desigualdades e sobre o papel histórico de trabalhadores e trabalhadoras na vida das cidades.
Atividade
Recursos: Projetor, caixa de som, computador, quadro, lápis pincel.
Introdução à Sequência Didática
A presente Sequência Didática surge do estranhamento enquanto professora da Educação Básica sobre como a história de Barras-PI é comumente ensinada, muitas vezes focada apenas na narrativa da “Terra dos Poetas e Governadores”. Esta abordagem hegemônica local é similar àquelas observadas em diversas cidades do país, tendendo a silenciar os sujeitos que constroem a história cotidiana do município. Assim, a proposta busca problematizar essa narrativa ao eleger os trabalhadores e trabalhadoras rurais como sujeitos históricos centrais, reforçando a importância de outros personagens e grupos sociais que de fato “fazem a história da cidade”. Daí o enfoque nos movimentos sociais e no sindicato (STTRB). Ressalta-se aos leitores que esta proposta pedagógica pode e deve ser adaptada conforme a realidade e os recursos disponíveis em cada cidade, escola e contexto docente. O objetivo é incentivar a busca por histórias locais não-hegemônicas em qualquer território.
Etapa 1: Exposição da questão base para o tema da aula
Para você, o que é um movimento social?
A partir das respostas, usar o método Tempestade (Brainstorming), no quadro anotamos as palavras que os (as) educandos (as) apontarem para responder à questão base. Usando-as em seguida para o direcionamento da discussão inicial da temática.
Etapa 2: Apresentação e leitura do texto motivador para conceituação de movimentos sociais
Anexo I – “Movimentos sociais: o que são, objetivos, exemplos”, autoria do professor de sociologia Francisco Porfírio
Após a leitura, responda: O que significa movimento social para você? Podemos dizer que os movimentos sociais são movimentos populares? Qual a relação que podemos estabelecer entre a busca por direitos civis e os movimentos sociais?
Etapa 3: Análise da Tirinha da Mafalda com foco na coletividade ativa e os movimentos sociais
Responder: Precisamos ser ativos na movimentação da vida? De que forma nossa postura diante da vida pode contribuir para as mudanças sociais e conquista de direitos civis? Como ser protagonista na história do meu bairro, do meu município?
Etapa 4: Levantamento de questões e reflexões acerca dos movimentos sociais em Barras-PI
Você sabe se existe movimentos sociais em Barras-PI?
Após o levantamento e discussão das respostas, haverá a apresentação da imagem da fachada do prédio onde está localizada sede do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Barras-PI.
Imagem 02 Fachada do prédio do STTRB
Fonte: Acervo pessoal Maura Fabrícia Silva de Almeida
Responder: Você sabe que lugar é esse? E onde está localizado? Que instituição funciona nesse prédio? Quando foi fundada? Por quem foi fundada? Que história você acredita estar por trás desse local ao observar essa foto?
Etapa 5: Com a bagagem conquistada sobre o tema nas etapas anteriores, iremos dividir a turma em três grupos, a fim de proporcionar o trabalho em equipe e o aprofundamento do tema através da pesquisa e do protagonismo estudantil.
Grupo 01: Irá realizar uma visita à sede do STTRB, serão orientados a observarem o ambiente como um todo e de forma minuciosa, observando as pessoas que lá encontrarão e produzirão um relatório de visita a ser apresentado para os demais colegas e, para isso, poderão usar como orientação o roteiro abaixo de perguntas sobre a visita:
1. Descrevam a Sede do STTRB? 2. Onde está localizada? Há muita circulação de pessoas na Sede? 3. Encontre o responsável pela Sede e faça as seguintes perguntas:
– O Sindicato possui hoje quantos associados? Como sua estrutura é mantida? – Qual a maior dificuldade enfrentada hoje pelo STTR/Barras–PI? – Qual a contribuição que o Sindicato traz para a sociedade barrense? – Quais os principais grupos atendidos e beneficiados com o STTRB? – Este sindicato é dos trabalhadores rurais. Existe também o sindicato que representa os empresários rurais? – Que tipos de serviços são prestados hoje no STTRB para a comunidade?
4. Se houver possibilidade, que tal iniciar um diálogo informal com algum trabalhador ou alguma trabalhadora, sobre a vida e o trabalho no campo? Faça as seguintes perguntas, anote a experiência e compartilhe com a turma:
– Lugar de residência atual? – Nível de escolaridade. – Número de filhos. – Como você iniciou a vida com o trabalho na agricultura? – Qual sua principal fonte de renda? – Como teve conhecimento do STTRB? – Depois que você se associou ao STTRB você percebeu modificações na sua maneira de trabalhar e viver no campo? Interferiu em algo?
Grupo 02: A tarefa desse grupo será elaborar e realizar uma entrevista com representantes sindicais do STTRB e dois trabalhadores (as) rurais associados ao STTRB. Listamos, como sugestão, o roteiro de entrevistas a seguir, podendo também contar com o auxílio de docentes de Língua Portuguesa, em atividade interdisciplinar.
Roteiro de entrevista com o representante sindical: – Fale-nos um pouco de sua trajetória sindical. – Você poderia nos falar do surgimento deste sindicato? – Houve dificuldades para a criação do STTRB? Você poderia citar algumas? – Em sua história, qual a relação entre concentração fundiária, reforma agrária e o movimento sindical em Barras? – Em breves palavras, você poderia nos descrever as conquistas dentro do município fruto das lutas sindicais? – Como acontece a representatividade feminina dentro do STTRB?
Roteiro de entrevista com Trabalhador/ Trabalhadora rural: – Você é um associado do STTRB? – Você sabe algo sobre o surgimento do movimento sindical em Barras? – Que tipo de exploração o trabalhador rural sofria antes do STTRB? – De que forma a vida do trabalhador mudou após o STTRB?
Grupo 03: Caberá a esse grupo após as discussões das etapas anteriores e a posterior apresentação dos grupos 01 e 02, produzirem e depois apresentarem uma dramatização teatral sobre a exploração do trabalhador e trabalhadora rural barrense antes da sindicalização, para isso buscaremos a ajudar dos docentes da disciplina de Arte e Língua Portuguesa no intuito de, junto aos integrantes do grupo, planejarem e realizarem as etapas necessárias para a produção da dramatização teatral. Como sugestão teremos as seguintes etapas de montagem da dramatização:
– Criar Roteiro: elaborar o roteiro definindo o tipo de peça (Tragédia, comédia, drama, romance, dentre outras), os textos, as falas dos personagens e os diálogos. – Escolha do elenco: selecionando os atores para os personagens; – Criar cenário e os figurinos: levando em consideração o contexto da peça e a personalidade dos personagens. – Realizar ensaios técnicos.
Etapa 6: Nesse momento teremos a apresentações dos resultados e trabalhos realizados do grupo 01 e 02, que ocorrerá na seguinte sequência:
O Grupo 01 irá exibir imagens e descrever relatório de visita a sede do STTRB para toda a turma, logo em seguida será lido com a turma o texto do item 3.5“O Sindicalismo em Barras” (página 50), da monografia de Nathanael Passos de Andrade, intitulada “Movimento social dos trabalhadores rurais de Barras (PI): a formação de uma entidade de classe, conflitos e perseguições (1972 a 1992)” (Andrade, 2018). Trecho transcrito a seguir:
O Sindicalismo em Barras
O sindicalismo na cidade de Barras–PI teve início na metade da década de 1950 com a Associação Rural de Barras, sendo essa primeira associação com caráter de classe desta cidade. De acordo com Antenor Rego Filho (2007, p. 202), a Associação Rural de Barras foi uma “entidade destinada a congregar em uma associação os proprietários rurais, pecuaristas e agricultores. Tinha mais um caráter assistencialista. Recebia verbas federais para dar assistência creditícia e técnica aos sócios”. Logo, percebe-se que essa associação se destinava aos grandes proprietários, o trabalhador ou o agregado não tinha esse direito, principalmente, o de obter recursos capitais para financiar a compra de terra ou para financiar o desenvolvimento da agricultura familiar. Nesse período os recursos capitais de incentivo do governo destinavam aos grandes proprietários de terras. Segundo Francisco Caetano da Costa (2017), esse fato ocorria devido os grandes proprietários de terra possuírem uma organização, ou seja, já tinham uma categoria bem definida e esse fato lhe atribuía facilidades na obtenção de crédito junto aos órgãos financeiros. Esse fato aumentava ainda mais o controle dos grandes proprietários, em vez que o trabalhador rural ou agregado não tinha condições financeiras e nem órgãos público ou privado que financiassem o desenvolvimento de sua produção, dependendo totalmente do latifundiário a qual era agregado. No início da década de 1970 o governo federal criou o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL) que tinha o carácter de fornecer assistência ao trabalhador rural, sobre a criação do FUNRURAL em Barras, Antenor Rego Filho cita:
FUNRURAL – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural – o contrato para a instalação do escritório do FUNRURAL em Barras foi assinado no dia 20 de março de 1972. A inauguração do escritório, como a denominação de ‘Representação’, foi no dia 3 de abril de 1972. Foi seu primeiro dirigente Antenor de Castro Rego Filho, que chefiou este escritório durante 10 anos. […]. Neste período, foram processadas e concedidas em Barras mais de 4000 aposentadorias por velhice e invalidez, além do auxílio funeral. A representação de Barras foi considerada o escritório mais organizado e com o menor índices de erros na concessão de aposentadorias em todo o país (REGO FILHO, 2007, p. 204).
Percebe-se, então, que o FUNRURAL veio a contribuir para o fortalecimento do Trabalhador rural, concedendo direitos e benefícios a esses. Contudo, percebe-se que o controle e gerenciamento desse órgão na cidade de Barras – PI, ficou a cargo dos grandes proprietários de terras, passando uma década sobre a direção de Antenor de Castro Rego Filho, descendente dos grandes proprietários de terras Barrenses.
Logo depois teremos a apresentação do grupo 02, com a exposição das entrevistas realizadas e seus comentários acerca da atividade realizada.
Etapa 7: Nesse momento teremos a apresentações dos resultados e trabalhos realizados do Grupo 01 e 02, que ocorrerá na seguinte sequência:
O Grupo 01 irá exibir imagens e descrever relatório de visita a sede do STTRB para toda a turma, logo em seguida será lido com a turma o texto do item 3.5“O Sindicalismo em Barras” (página 50), da monografia de Nathanael Passos de Andrade, intitulada “Movimento social dos trabalhadores rurais de Barras (PI): a formação de uma entidade de classe, conflitos e perseguições (1972 a 1992)” (Andrade, 2018). Trecho transcrito a seguir:
Os “Donos do Poder”: a exploração dos Trabalhadores Rurais em Barras
A riqueza material é objeto de desejo dos homens, dentre estas riquezas destaca-se a posse da terra. No Brasil existe desigualdade social em relação a posse da terra concentrada nas mãos de poucos indivíduos. Essa desigualdade vem desdo período colonial na distribuição de sesmarias e ainda continua a existir. A posse da terra no período colonial era atribuída, geralmente, a famílias tradicionais, e quanto maior a quantidade de terra maior é o poder e influência que o indivíduo ou famílias podia exercer sobre a região em que vive. Em Barras a posse da terra até as décadas finais do século XX, estava restrita praticamente ao domínio de quatros grupo de famílias. Segundo Maria das Dores Bezerra (2017) os quatros grupos possuidores de terra eram das famílias de “Antenor Rego, a outra era do Abraão Gomes e a outra do Pedro Veras […]. Esses três proprietários e tinha essa outra aqui do Barro Preto dos Lages”. A posse da terra além da riqueza material ainda conferia a seus latifundiários o domínio e controle sobre o trabalhador rural. O trabalhador rural em Barras era dominado tanto na forma física como no modo de pensar, colocado num nível abaixo de outras profissões. O trabalhador chega a negar a sua ocupação profissional. Sobre isso, Francisco Caetano da Costa (2017) coloca que:
[…] o trabalhador rural por não ter conhecimento achava que era certo e se envergonhava de, quando ia tirar um documento dizer que trabalhava, dizia que trabalhava de trabalhador rural, dizia não. Muitas vezes dizia que era pedreiro, outro ele dizia que era padeiro e assim, sucessivamente, pra desviar, pra não botar de trabalhador rural, que trabalhador rural era uma escravidão.
O trabalhador rural era explorado de várias formas, de acordo com Maria das Dores Bezerra (2017) “os trabalhadores era um povo muito oprimido, povo é humilhado, um povo massacrado pelos proprietários. Era os escravizados mesmo né”. A começar pela renda, que era alta o valor cobrado do trabalhador rural. Francisco Caetano da Costa, fala sobre a cobrança da renda ao trabalhador rural.
[…] aqui nos Três Caminho, era exigido três paneiros de arroz seco! Não era arroz apanhado levado mole não para a balança, era seco! Tem o trabalho de secar e levar, pra balança por linha. Três paneiro de arroz ele não queria, ele não aceitava outro tipo de legume. Aí daí é que foi indo aí como muita luta é que passou a se pagar uma carga por linha o meu pai nos anos setenta, setenta e dois, setenta e três ele teve de plano ainda os porcos que não trouxemos lá da onde nos morava, ele teve de plano a vender, dá criação pra pagar renda a proprietário, porque o inverno não deu de criar. Foi preciso eu quase de joelho pedi pra meu pai não fazer isso, porque eu naquela idade que tinha ainda jovens, mas lembrava muito bem, que meu pai nunca fez confusão pra não pagar a renda pra proprietário conforme a produção, aí o meu pai se achou pressionado por um proprietário na época ao por de dizer ‘eu vou vender’ […] então, o que, que acontece ele chegou ao ponto de confessar para nós que por insistência do proprietário tava exigindo demais, ele chegou a nominar porco tal, porco tal, porco tal que ia vender para pagar o proprietário com dinheiro.
Pode-se que a cobrança da renda além de alta (3 paneiros de arroz correspondem a aproximadamente 100 quilos de arroz) não dependia da produção, em caso de período de ausência ou abundância de chuvas que prejudicasse ou levasse a perda da lavoura mesmo, assim, o trabalhador rural barrense era obrigado a pagar a renda. E ainda durante a cobrança da renda o proprietário levava além da produção alimentícia, levava os animais de criação dos trabalhadores sem que pagasse nada ao dono dos animais. Sobre isso, Maria das Dores Bezerra (2017) apresenta sua experiência:
E eu lá em casa eu via a minha mãe sempre tinha muito cuidado de criar, a gente criava muito: porco, bode, galinha, até peru a gente dá andou querendo criar. Muitas vezes eu vi o proprietário chegar, aqui aculá eles aparecia, chegava e perguntava, assim, “de quem isso aí?” Um capão, um peru no terreno. “Pega aí menino! bota aí no carro”. Não perguntava quanto era, não perguntava se o dono queria vender, não perguntava se podia levar, só fazia pegar e levar.
Outra forma de exploração comum, que os grandes proprietários de terra praticavam com os trabalhadores rurais barrenses era: o trabalho na roça ou em outro local de posse do proprietário, de forma gratuita. Esse tipo de trabalho variava dependendo do proprietário e também da época do ano, podendo ser um, dois ou três dias da semana de trabalho gratuito que o trabalhador rural era obrigado a prestar ao latifundiário. Sobre esse fato Francisco Caetano da Costa (2017) fala que o trabalhador rural barrense apenas recebia o recado mandado pelo proprietário, transmitido por um terceiro, tinha que ir trabalhar.
[…] tinha os dias de semana, quando tava bem apressado, muito acochado o serviço, era dois dias, quando tava fraco o serviço passava para um dia, mais esse dia nem tanto era exigido ele achando que era por direito dele, como tinha morador safado que servia de mandato para ir fazer, dar aquele recado, sabe como hoje aboca da noite o cara chegava montado num cavalo dando o recado patrão mandou chamar para trabalhar amanhã.
Além das formas de explorações citadas acima (renda e trabalho gratuito) ainda existia mais duas, estas duas relacionadas a venda e a compra de mercadorias. O trabalhador rural de Barras era obrigado a vender sua produção (arroz, feijão, farinha, coco babaçu entres outros produtos) somente no comércio do proprietário da terra. E nesse processo o trabalhador sofria mais uma perda, principalmente, na venda do coco babaçu, pois vendia no preço abaixo do mercado e também havia perda no peso do produto. De acordo com Antônio Pereira (2012) “a questão da venda do babaçu que era vendido no, era vendido no balcão do patrão e o patrão recebia 1200, 1600 gramas, 1500 gramas, pra pagar um quilo”.
O grande proprietário rural de Barras se achava no direito de controlar como o trabalhador rural deveria vender sua produção, caso o trabalhador rural vendesse-a para outro comerciante, esse era acusado de roubo. Segundo Maria das Dores Bezerra (2017) “os proprietários compravam o tanto que queriam, não deixavam os trabalhadores vender fora, o trabalhador não podia vender um carroço de coco fora que eles achavam que era roubo”. E ainda havia outro tipo de punição ao trabalhador rural barrense que era a expulsão das terras e queima da casa do trabalhador rural como fala Francisco Caetano da Costa (2017): “se fosse pego, o cara ia bate lá e dizia pra ele, aí tinha dois, duas ideia na cabeça dele que ele usava como positivo: chama a atenção do cara para uma conversa. Se completasse as três vezes aí não tinha mais acordo, não tinha mais conversa não, era fogo na casa”. Sobre a compra de mercadoria pelo trabalhador rural barrense, esse também era obrigado a comprar exclusivamente no comércio do proprietário da terra. Novamente, o trabalhador rural saia perdendo, pois, a mercadoria vendida pelo proprietário era num valor acima do praticado no comércio e muitas vezes não tinha a mercadoria que o trabalhador necessitava no momento. Para o grande proprietário de terra controlar a vender e comprar de mercadorias pelo trabalhador rural barrense, não se utilizava dinheiro em todas as transações econômicas entre trabalhador e o grande proprietário, utilizavam-se sistema de “vale”. O vale somente dava direito de compra no comércio do proprietário da terra, assim, com esse sistema o grande proprietário de terra controlava as compras do trabalhador rural, já que o trabalhador não recebia dinheiro em suas vendas, assim o trabalhador ficava sujeito a comprar no valor que o proprietário desejasse vender.
Logo depois teremos a apresentação do Grupo 02, com a exposição das entrevistas realizadas e seus comentários acerca da atividade realizada.
Nota para o(a) Docente: Sugestão de Material de Apoio Para complementar a análise da história do sindicalismo em Barras-PI e o contexto do coronelismo, recomenda-se que o docente consulte a obra “Do coronelismo ao clientelismo: práticas eleitorais no Piauí”, de Francisco Farias. A obra contém menções à cidade de Barras, inclusive fotografias e depoimentos que podem enriquecer a discussão sobre o contexto local antes do surgimento do STTRB.
Nesse momento aproveitaremos para fazer uma avaliação juntos aos (as) educandos (as) sobre o tema estudado e os trabalhos realizados a fim de que possamos identificar pontos fortes e reconhecer possíveis lacunas de aprendizagem. Verificaremos o progresso e as dificuldades de aprendizagem dos (das) educandos (as) através de autoavaliações, produção oral e a observação do desempenho no decorrer das etapas. Solicitaremos também para que elaborem uma redação descrevendo que Barras eu conheci após esse trabalho e quem faz parte dela, como forma de questionar os (as) educandos (as) sobre como a aula oferecida na oficina reorientou suas noções anteriores sobre o tema investigado.
Durante a produção e apresentação dos trabalhos em grupos, observaremos se a ferramenta conseguiu cumprir sua missão, pois trabalhos em grupo dizem muito da personalidade dos (das) educandos (as) e, sem dúvida, podem ser uma ótima possibilidade para investigar a capacidade de argumentação, de liderança, de respeito às diferenças e de proatividade.
Bibliografia e Material de apoio:
ALMEIDA, Maura Fabrícia Silva de. HISTÓRIA LOCAL E CONSCIÊNCIA HISTÓRICA: Ensino de História nas escolas de Ensino Fundamental de Barras-PI. Parnaíba-PI: Universidade Estadual do Piauí (UESPI) campus Prof. Alexandre Alves de Oliveira, 2024. [Dissertação de Mestrado]
ANDRADE, Nathanael Passos de. Movimento Social dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Barras (PI): A Formação de uma entidade de classe, conflitos e perseguições (1972 a 1992). 2018. Monografia (Graduação em História) – Universidade Estadual do Piauí, Campus Rio Marataoan. Barras, 2018.
COSTA, Francielcio Silva da. O coronelismo no contexto político do município de Barras-Piauí (1955-1980). Baraúnas, v.1, n.1, maio/dez, 2023.
FARIAS, Francisco. Do coronelismo ao clientelismo: práticas eleitorais no Piauí, Brasil. Teresina: Edufpi, 2020.
ROCHA, Cristiana Costa da. Memória migrante: A experiência do trabalho escravo no tempo presente (Barras, Piauí). 2010. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2010. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/2853. Acesso em: 20 mai. 2024.
Tirinha Mafalda. Depósito de tirinha. Disponível em: https://deposito-de tirinhas.tumblr.com/post/151612211752/por-quino. Acesso em 20 jun. 2024.
Chão de Escola
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil. Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
Inghrid Masullo Doutoranda em História Social pelo PPGHIS/UFRJ
Entre os dias 23 e 27 de novembro de 1935, levantes militares eclodiram em quartéis nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro, sendo rapidamente suprimidos pelo governo no Distrito Federal e na capital pernambucana. Em Natal, a insurreição durou alguns dias antes de ser debelada. Os movimentos, liderados por oficiais ligados a Aliança Nacional Libertadora (ANL) visavam derrubar o governo de Getulio Vargas e dar início a uma revolução “nacional-popular” contra as oligarquias e o imperialismo. Ficariam conhecidos pelo pejorativo nome de “Intentona Comunista”.
Relembrar aqueles acontecimentos costuma significar retornar aos quartéis, aos oficiais insubordinados, à figura de Luís Carlos Prestes e à narrativa, amplamente difundida ao longo das décadas, de uma tentativa militar de insurreição comunista. Entretanto, o foco na rebelião militar tem invisibilizado um ciclo intenso e anterior de mobilização social. Entre 1930 e 1935, trabalhadores de diferentes regiões do país protagonizaram ondas grevistas, processos de reorganização sindical, disputas internas, campanhas contra prisões arbitrárias, protestos contra empresas estrangeiras, participação em frentes antifascistas, dentre outras manifestações de luta social e engajamento político.
Tratar dos trabalhadores apenas como beneficiários passivos da legislação trabalhista promulgada em 1930, como comumente é feito, obscurece o fato de que eles próprios foram importantes atores políticos e sociais daquele momento. Eles recorreram às leis para reivindicar direitos, fizeram greves para garantir sua aplicação, disputaram a direção dos sindicatos e se engajaram ativamente nas frentes antifascistas e até mesmo, em alguns poucos casos, em células integralistas. Nada disso cabe na imagem de uma classe trabalhadora sem agência e interesses próprios, completamente tutelada pelo Estado, como frequentemente são retratados.
No Norte e Nordeste, especialmente em Belém, São Luís, Natal e Recife, estivadores, carregadores, marítimos e ferroviários protagonizaram conflitos contra companhias portuárias e empresas estrangeiras, que insistiam em descumprir decisões das Juntas de Conciliação. No Recife, greves de têxteis e trabalhadores dos armazéns se articularam a denúncias de violência policial e à disputa das sociedades de resistência. Em Natal, como mostram documentos do Departamento Nacional do Trabalho, ferroviários se organizavam para reivindicar reintegrações e denunciar perseguições políticas já antes dos levantes de novembro. No Rio de Janeiro, trabalhadores têxteis e marítimos alternavam paralisações, piquetes e campanhas salariais com lutas pela autonomia sindical. Em Porto Alegre, sapateiros, gráficos e trabalhadores da alimentação se mobilizaram contra a interferência patronal e disputavam a condução dos sindicatos. Em São Paulo, metalúrgicos resistiram à tentativa estatal de submeter os sindicatos à nova legislação, recurso que, paradoxalmente, usavam como instrumento de reivindicação. Essas mobilizações, entre várias outras, expressavam, como argumenta Boris Koval, a continuidade das tradições de luta do movimento operário desde meados do século XIX, agora reconfiguradas em novos marcos legais.
Nesse contexto, a leitura de que o operariado teria aceitado e aderido passivamente à tutela estatal não resiste ao exame das fontes. Trabalhadores acionaram ativamente as Juntas de Conciliação e Julgamento, pressionaram o Estado pelo cumprimento na nova legislação, criaram fundos de greve e se organizaram em associações de bairro, sociedades de auxílio mútuo e comissões de fábrica. A ascensão do fascismo internacional e o surgimento do Integralismo no Brasil, também impactaram fortemente a luta social da classe trabalhadora. O antifascismo, longe de ser um tema estritamente partidário, ganhou materialidade na vida cotidiana. Em bairros operários do Rio de Janeiro, por exemplo, foram registrados confrontos entre trabalhadores e grupos integralistas já em 1933. Em Recife, sociedades operárias organizaram debates e comícios contra o fascismo italiano. Em São Paulo, gráficos e sapateiros participaram ativamente da Frente Única Antifascista, que enfrentou militantes integralistas nas ruas em 1934.
Edição onde se expressa a relação entre a ANL e a classe trabalhadora.
Esse ambiente de mobilizações antecedeu e dialoga diretamente com o surgimento da Aliança Nacional Libertadora. Criada em março de 1935, em meio à ascensão do fascismo (cuja expressão no Brasil foi principalmente a Ação Integralista Brasileira) , à crise econômica e ao desgaste das promessas da Revolução de 1930, a ANL se tornou uma ampla frente antifascista, congregando diversos setores da sociedade brasileira, entre eles trabalhadores, militares, intelectuais e parte das classes médias urbanas. O Partido Comunista do Brasil (PCB) teve grande influência na ANL, embora ela fosse politicamente mais ampla, em particular em sua fase legal. Quando surgiu, A Aliança Nacional Libertadora encontrou um mundo do trabalho politizado, ativo e em disputa, no decorrer de uma intensa onda grevista que marcou profundamente os anos de 1934 e 1935. Durante este período, portuários paralisaram atividades em Recife, Rio de Janeiro e Santos, ferroviários da Central do Brasil, Great Western e Sorocabana entraram em greve. Gráficos e têxteis mobilizaram-se no Rio, Recife e São Paulo. Apesar das particularidades de cada categoria, essas mobilizações convergiam em reivindicações semelhantes, entre elas a redução das longas jornadas de trabalho, melhores salários, proteção contra demissões, autonomia sindical e o cumprimento das novas leis trabalhistas.
A criação de comitês aliancistas em sindicatos, sociedades de bairro e associações de auxílio mútuo mostra que o programa anti-imperialista, anti-latifundiário e antifascista da ANL dialogava com demandas do movimento operário. A defesa de direitos, a crítica à repressão e a luta contra o fascismo integravam um repertório que não dependia apenas de diretrizes partidárias. A criação da Confederação Sindical Unitária do Brasil, em 1° de maio de 1935, também evidencia esse processo. Embora frequentemente apresentada como iniciativa exclusiva do PCB, a CSUB foi resultado de uma articulação ampla em torno da unidade sindical e da defesa de direitos. Aderir a essas organizações significava, para muitos trabalhadores, afirmar um projeto político próprio, e não se submeter a diretrizes externas.
Esse conjunto de mobilizações, distribuídas nacionalmente, permite compreender, em parte, a expectativa, principalmente dos setores comunistas, de que o operariado poderia aderir massivamente à uma potencial insurreição. Esta leitura, no entanto, não levou em consideração as rápidas e intensas mudanças ocorridas ao longo de 1935. Em julho, a ANL foi colocada na ilegalidade e fechada, desencadeando uma forte onda repressiva que atingiu em cheio os trabalhadores organizados e afetou profundamente sua capacidade de atuação. Foi nesse contexto que setores do PCB optaram pela via insurrecional, apostando numa adesão do movimento operário que vinha sendo enforcado pela repressão.
Gregório Bezerra, importante liderança no Recife, lamentou a falta de 300 estivadores esperados para o levante; Rolando Fratti, liderança operária paulista, argumentou que os trabalhadores foram “pegos de surpresa” por eles. As duas falas evidenciam o descompasso entre a estratégia vanguardista do PCB e a realidade concreta vivenciada pelo movimento operário após julho de 1935. De fato, os que não “apareceram” foram os que sofreram as consequências de forma mais intensa. O peso da repressão recaiu majoritariamente sobre os trabalhadores e suas organizações. Como mostram muitos dos inquéritos policiais do período, a maioria dos presos após os levantes não participou de qualquer ação militar. Eram dirigentes sindicais, grevistas, delegados de fábrica, membros de comitês aliancistas ou simples trabalhadores denunciados por vizinhos e chefes. Como observou Paulo Sérgio Pinheiro, 1935 tornou-se um “pretexto” para o autoritarismo exercer-se contra a sociedade brasileira e, inevitavelmente (ou especialmente) contra a classe trabalhadora.
Revisitar o contexto no qual os levantes de novembro de 1935 estão inseridos pela ótica da história social do trabalho nos dá a possibilidade de atentar à densidade de uma década que, por vezes, teve sua complexidade encolhida num acontecimento. Evidenciar este contexto mais amplo é, sobretudo, reafirmar o lugar dos trabalhadores enquanto sujeitos ativos na construção de projetos de democracia, justiça e transformação social ao longo de nossa história e que, ainda hoje, permanecem em disputa.
A manhã, periódico da Aliança Nacional Libertadora, comemora o 1° de maio. Fonte: A Manhã 02/12/1935. Acervo:Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
Crédito da imagem de capa: O congresso Nacional de Unidade Sindical realizado em abril de 1935, noticiado na edição de 1° de maio daquele ano do periódico da ANL, A Manhã. Fonte: A Manhã 01/05/1935 – Acervo: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
Está no ar o sexto episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sexto episódio, conversamos com Jessica Santana, doutora em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Jessica contou um pouco sobre sua tese “À frente dos negócios: a atuação das viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro (1850-1889)”, que recebeu Menção Honrosa no Prêmio de Teses Capes 2025.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Gabriel dos Santos Rocha Doutorando em História (USP)
Clóvis Steiger de Assis Moura, nasceu em Amarante (Piauí) no dia 10 de junho de 1925; faleceu na cidade de São Paulo no dia 23 de dezembro de 2003. Foi um intelectual marxista autodidata, historiador, sociólogo, jornalista, crítico literário, poeta, militante comunista e do movimento negro. Sua formação, atividade intelectual e atuação política não se dissociavam. Foi um intelectual orgânico no sentido gramsciano do termo. Teve uma trajetória vinculada às lutas por emancipação da classe trabalhadora, nas quais pautou a dupla opressão social que atinge a população negra: a opressão de classe e o racismo; tema sobre o qual refletiu amplamente em sua obra. Buscou respostas para tais problemas na investigação do processo histórico e na práxis política.
Em 1945 ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Na década de 1960 integrou o Partido Comunista do Brasil (PcdoB), agremiação originada de uma dissidência do PCB em 1962. Ao longo da vida atuou como jornalista militante na imprensa de esquerda, e profissionalmente em veículos de maior abrangência. Moura teve contribuições importantes para o marxismo no campo teórico e na luta política e social: a relação entre escravidão, racismo e capitalismo, e a questão racial na luta classes são temas fundamentais em sua produção intelectual e militância.
Suas principais contribuições teóricas no marxismo estão na historiografia e na sociologia, ainda que sua produção também dialogue com outras áreas do conhecimento como a economia política, a antropologia, a etnologia, a crítica literária e os estudos culturais. Ocupou-se fundamentalmente de problemas brasileiros, embora tenha dedicado algumas passagens de sua obra à América Latina e ao Caribe. O conjunto de sua produção pode ser visto como um programa de interpretação do processo histórico brasileiro desde o período colonial ao republicano no qual se destacam: 1) a escravidão e a colonização na formação social, política, econômica e cultural do Brasil; 2) as insurreições negras contra a escravidão na perspectiva da luta de classes; 3) o racismo como ideologia de dominação no capitalismo dependente brasileiro; 4) as organizações negras na luta contra o racismo no Brasil pós-abolição.
Moura ganhou notoriedade por estudar as insurreições negras do período escravista, tratando-as sistematicamente, e não como meras erupções espontâneas sem qualquer impacto nas relações de produção e na sociedade. O autor considerou as várias formas de resistência dos escravizados como elementos dinamizadores e de negação do sistema escravista, a exemplo das fugas, insurreições, guerrilhas, quilombos, atentados contra senhores e feitores, suicídios, abortos etc. O autor denominou quilombagem, esse processo de resistência constante ao escravismo.
Os quilombos, insurreições e guerrilhas foram objetos primordiais de suas análises, e deram o subtítulo de seu primeiro livro, Rebeliões da Senzala (1959), cuja primeira edição teve pouca repercussão, porém, posteriormente veio a se tornar um clássico sobre o tema, sobretudo, a partir da segunda edição de 1972. Neste livro, Moura lançou as bases interpretativas da escravidão que foram desenvolvidas ao longo de quase toda sua obra, em produções posteriores.
Rebeliões da Senzala, Edições Zumbi, 1959. Capa: Octávio Araújo
Para o autor, os escravizados que se rebelavam, sobretudo os quilombolas e insurretos eram agentes de negação do sistema escravista. Ainda que os escravizados – devido a própria natureza da escravidão colonial – não tivessem condições objetivas de projetarem um sistema econômico, político e social alternativo, suas rebeliões, guerrilhas e quilombos, atentavam contra a propriedade escravista. Deste modo, Moura não apenas conferiu sentido político ao protesto negro daquele período, como também, considerou que a dinâmica, o desenvolvimento e a superação do escravismo deveriam ser compreendidos a luz do antagonismo entre escravizado e escravocrata, as classes fundamentais daquele sistema econômico e social.
Ao abordar a escravidão Moura se contrapôs à ideia de “antagonismos em equilíbrio” amplamente defendida por Gilberto Freyre, a qual contribuiu para a formulação do chamado “mito da democracia racial” (apesar da expressão não ter sido cunhada por Freyre, suas teses foram fundamentais na formulação desse “mito”). Sem desprezar as diferentes técnicas de dominação senhorial, Moura enfatizou a violência como elemento central da sociedade escravista. No entanto, ao contrário de muitos autores que tratavam mais da violência senhorial, Moura se importou com a violência do escravizado. Assim se contrapôs, não apenas à Freyre, mas também às concepções que embasariam a teoria do escravo-coisa. Se por um lado, o escravismo buscava reduzir africanos e seus descendentes à condição social de bem semovente, por outro, os escravizados negavam tal condição quando se rebelavam. Como observou Jacob Gorender, o status de coisa encontrava seus limites na própria ordem escravista quando um escravizado era julgado por atentar contra a propriedade ou contra a vida de seu algoz. Se a violência senhorial era um fator de desumanização do africano e seus descendentes, a violência do escravizado era um fator de negação da desumanização imposta pela ordem senhorial. Assim, a violência era uma expressão de humanidade do escravizado.
Além dos quilombos e rebeliões de cativos, Moura também estudou a participação dos negros em insurreições populares dos séculos XVIII e XIX. Os afro-brasileiros também participaram ativamente de movimentos transformadores na História, a exemplo da Independência (1822) e da Abolição (1888), porém, via de regra, foram excluídos das esferas de poder de decisão e dos projetos dos vencedores.
Se a escravidão foi tema ao qual Moura se dedicou até o fim da vida, também é verdade que o autor produziu significativamente sobre o pós-abolição, como vemos em O negro: de bom escravo a mau cidadão? (1977), Brasil: as raízes do protesto negro (1982), Sociologia do Negro Brasileiro (1988) e Dialética Radical do Brasil Negro (1994). Moura caracterizou o Brasil pós-abolição como uma sociedade de capitalismo dependente na qual o racismo se manteve como uma ideologia de dominação de classes, associada às formas de controle social e exploração do “trabalho livre”.
A dependência em relação aos centros (Europa Ocidental e EUA) foi historicamente condicionada pelo processo no qual o Brasil se inseriu na “ordem concorrencial internacional” desde a abertura dos portos em 1808. Àquela altura os quase 300 anos de escravidão e pacto colonial inviabilizaram a acumulação primitiva de capitais na colônia. A manutenção da estrutura escravista e agroexportadora com a independência em 1822, somada à implementação de uma infraestrutura modernizante (ferrovias, portos, telégrafos, casas comerciais etc.) sob o capital estrangeiro durante a economia cafeeira, só reiterou e reforçou a condição de dependência ao longo do século XIX. Tal heteronomia, guardadas as peculiaridades de cada época, se estenderia por um processo de longa duração até os dias de hoje.
O racismo no pós-abolição seguiu como um dispositivo organizador das desigualdades sociais. Na passagem da economia escravista para o capitalismo, o negro foi alijado dos setores produtivos mais dinâmicos, e lançado majoritariamente aos setores mais precarizados e ao exército industrial de reserva. Tal fato se verifica entre o final do século XIX e os anos 1930, quando o Estado brasileiro investiu em políticas de imigração subvencionada, voltada principalmente para a vinda de europeus que foram empregados nas industriais, mas também em fazendas de café em São Paulo (que se tornara importante polo do capitalismo nacional).
Houve autores que tentaram explicar tal fato a partir de uma presumida “anomia social do negro” (herdada da escravidão) contraposta a uma “aptidão cultural do europeu para o trabalho livre”, a exemplo de Florestan Fernandes. No entanto, Moura refutou esta tese, e defendeu que opção pelo imigrante europeu atendia a duas demandas das classes dominantes: 1) o almejado branqueamento da população (ventilado por ideais eugenistas); 2) a garantia de uma superpopulação relativa que pressionaria para baixo o valor da força de trabalho, conferindo maior poder de barganha patronal. Assim, a marginalização social do negro não resultou de uma presumida “deformação de personalidade” herdada da escravidão contraposta a uma suposta “superioridade cultural do europeu”. Tal problema se deve a uma política de substituição étnica da força de trabalho que atendia aos interesses eugenistas e econômicos das classes dominantes acopladas ao Estado.
O problema do racismo associa-se à questão de classe na medida em que, historicamente, a exploração da força de trabalho segue racializada em uma sociedade formada majoritariamente por pretos e pardos (atingidos duplamente pela opressão racial e socioeconômica). O escravizado do passado é o ancestral da classe trabalhadora brasileira. Diante disso, Moura também estudou e colaborou com a luta das organizações negras contra o racismo, entendendo que se trata de um problema fundamental a ser enfrentado na luta pela superação do capitalismo.
Manifestação do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial, 1978. Foto: Jesus Carlos / Memorial da Democracia
PARA SABER MAIS:
FARIAS, Márcio. Clóvis Moura e o Brasil. São Paulo: Editora Dandara, 2019
MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas. 5ª ed. São Paulo: Anita Garibald/Fundação Maurício Grabois, 2014a
OLIVEIRA, Fábio Nogueira. Clóvis Moura e a sociologia da práxis negra.Dissertação de mestrado, Niterói: UFF, 2009
ROCHA, Gabriel dos Santos. Clóvis Moura e a América Latina. In: Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2025/07/10/clovis-moura-e-a-america-latina/
O Complexo Florestal e Madeireiro de Panguipulli (COFOMAP) foi uma grande empresa florestal, propriedade do Estado do Chile e administrada por seus trabalhadores. Mais de 3.000 pessoas e suas famílias viveram e trabalharam em seus 400.000 hectares. Esse território nas cordilheiras, localizado entre os municípios de Panguipulli e Futrono, na atual região de Los Ríos, no sul do Chile, foi progressivamente povoado por famílias oriundas das regiões próximas de Valdivia e Araucanía. Em especial, camponeses e trabalhadores chilenos sem-terra, que se empregaram nas explorações florestais que se desenvolveram desde a década de trinta de maneira massiva.
O COFOMAP foi criado graças ao processo de ocupação de terras por trabalhadores organizados no verão de 1970-1971, isso no contexto dos abusos patronais em relação a questões como salários justos, falta de serviços sociais, proibição de formar sindicatos, entre outros maus-tratos trabalhistas. Como parte das negociações com o recém-instalado governo de Salvador Allende, decidiu-se criar uma empresa pública gerida em conjunto por trabalhadores (seis delegados no Conselho Diretivo) e representantes do governo (dois delegados no Conselho), além de um diretor-executivo nomeado por Allende.
Nesse território fundaram povoados, escolas, centros esportivos e de saúde, constituindo uma estrutura social que foi destruída de forma dramática a partir de 11 de setembro de 1973, quando ocorreu o Golpe de Estado pelo qual as Forças Armadas derrubaram o Governo de Salvador Allende. A partir desse momento, um brutal processo de contrainsurgência se desenvolveu, que começou com a ocupação militar de todas as terras e localidades do COFOMAP, resultando em toque de recolher, detenção e encarceramento, torturas, assim como o desaparecimento e a execução sumária e ilegal de dezenas de trabalhadores e militantes de esquerda. Essa repressão localizada na região se deveu ao processo de politização dos trabalhadores e ao exemplo que representava a cogestão de suas organizações sindicais com o Estado para levar adiante uma administração socialista da empresa. Convém recordar que a ocupação de terras entre 1970 e 1971 teve um grande impacto na imprensa e na opinião pública da época, chegando a ser um tema de debate no Congresso Nacional.
Nesse sentido, essa área contou com uma forte presença de militantes de esquerda: socialistas, comunistas e, particularmente, jovens do Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR), um partido recém-formado na época, de caráter guevarista, que impulsionou o processo de mobilização para ocupar as terras por parte dos trabalhadores. Todos esses grupos ajudaram na criação de sindicatos e desenvolveram atividades políticas, tanto formativas quanto mobilizadoras no local.
Esse processo gerou um clima de terror agudo, seguido pela intervenção e posterior liquidação da empresa, privatização das terras e, finalmente, com a gradual, porém constante, expulsão dos habitantes do Complexo. Constituiu-se, assim, uma prática de deslocamento forçado de milhares de pessoas, inserida em uma estratégia repressiva do Estado, somando outro crime contra a humanidade na região.
Nos dias 3 e 4 de outubro de 1973, em Neltume, cidade de Panguipulli, na região de Los Ríos,doze pessoas foram fuziladas após serem acusadas de atacar o Posto de Carabineros da localidade. Em 9 de outubro, foram detidos, executados e desaparecidos dezessete habitantes de setores da área Sul do Complexo. Um dia depois, no dia 10 de outubro, outros quinze dirigentes sindicais e trabalhadores da COFOMAP foram detidos em Liquiñe, também na região, e depois transferidos até a Ponte Toltén, em Villarrica, onde foram fuzilados e desaparecidos. Essas ações repressivas foram investigadas pela justiça chilena nos autos do caso: Caravana da Morte, episódio Valdivia.
No mesmo período e como parte dessa estratégia, a administração delegada da ditadura militar no COFOMAP implementou uma série de medidas restritivas as liberdades de seus habitantes, todas voltadas para manter o controle da área e criar as condições para a retirada deles do território. Do ponto de vista administrativo, as terras do Complexo foram inicialmente transferidas para a Corporación Nacional Forestal (CONAF) e, posteriormente, para a Corporación de Fomento (CORFO). A partir dessa entidade, as terras foram privatizadas, desindustrializando a região e desmantelando todas as suas instalações produtivas, especialmente as serralherias, acelerando o assédio aos trabalhadores.
A situação se agravou a partir de 1981, depois que foi descoberta na região a presença de um destacamento guerrilheiro integrado por militantes do MIR, alguns deles trabalhadores florestais do COFOMAP. Entre setembro e dezembro de 1981, foram executados sumariamente sete militantes do MIR nos setores de Releco e Choshuenco, em meio a um deslocamento de centenas de militares e agentes da Central Nacional de Informações, que se espalharam por todas as propriedades do Complexo.
Seguindo uma prática do manual de contrainsurgência, os operativos militares se combinaram com operativos civis e militares, sob a coordenação do Comandante da Divisão do Exército e Governador Provincial de Valdivia, General Rolando Figueroa Quezada. Nesse processo, participaram funcionários públicos e membros de organizações civis ligadas à ditadura, como a Secretaria Nacional da Juventude ou Cema Chile. Esses operativos tinham como objetivo não apenas detectar apoio à insurgência, mas também disciplinar a população do Complexo através do medo e da cooptação.
É nesse contexto de repressão e ocupação militar que se desenvolveu o já mencionado processo de desintegração e liquidação do Complexo, processo concluído com a privatização a preço vil das diversas propriedades que o integravam, incluindo a expulsão gradual de todos seus habitantes, processo que não foi mediado por nenhuma resolução judicial.
Foi a partir dos anos 2000 que antigos militantes do MIR e suas famílias revisitaram a zona para explorar os locais em que ocorreu a repressão no início da ditadura e as atividades guerrilheiras de resistência no início dos anos 80.
Na busca por recuperar essas histórias de luta surge o contato com os habitantes de Neltume. Ao mesmo tempo procurava-se romper com o medo ainda existente, apesar do fim da ditadura, e impulsionar ações pontuais como encontros e conversas sobre o passado recente.
O seguinte passo foi criar um espaço para revitalizar a intensa história deste território. Foi assim que a comunidade de moradores e ex-militantes criaram o Centro Cultural Museu e Memória de Neltume. O Centro é uma instituição autogerida que luta pela memória e desde 2004 começou a recuperar a história do território de forma formal. Isso foi feito através de encontros, visitas a locais de repressão e de luta, assim como ativação comunitária em relação à memória histórica do território, criando uma exposição permanente e gerando ações educativas.
Atualmente, esse espaço continua muito ativo, apesar das dificuldades impostas pelo negacionismo, representado em ataques e roubos ao Museu e incêndios a ex-serralheria e à delegacia de Carabineros (ambos locais de memória). Todos episódios pouco investigados pelos organismos do Estado. Apesar disso, o Centro continua apoiando reivindicações ambientais, sociais e indígenas da região, dando continuidade histórica à ação de trabalhadores, militantes e ativistas que, durante o século XX, construíram a paisagem social e econômica dessas terras do sul.
Casa do Centro Cultural e Museu e Memória de Neltume. Fonte: museoneltume.cl
Tradução: Yasmin Getirana
Para saber mais:
Bize, Cristóbal. (2017). El otoño de los raulíes. Poder popular en el Complejo Forestal y Maderero Panguipulli (Neltume, 1967-1973). Santiago: Tiempo robado.
Silva, R. La transformación de lo local. La empresa estatal Cofomap bajo la dictadura civil-militar-empresarial, Los Ríos, Chile (1977-1988). Boletín Americanista. N° 89, 2024 pp. 277-298.
Silva, R. La memoria de Neltume, Chile: el patrimonio que vence al negacionismo. Tempo & Argumento vol 16 N° 42,2024, p. e0104.
Crédito da imagem de capa: Ocupação da propriedade Neltume. Fonte: museoneltume.cl
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
Está no ar o quinto episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
Nesta temporada, convidamos pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sexto episódio, conversamos com Felipe Treviso Bresolin, doutorando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Felipe conversou com os entrevistadores do Vale Mais sobre o livro “Jogo, logo existo: Futebol, conflito social e sociabilidade na formação da classe trabalhadora em Rio Grande/RS (1901-1930)”, fruto de sua dissertação de mestrado, defendida em 2023.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Neste episódio, a professora Clarice Speranza (UFRGS) apresenta o clássico “Senhores e Caçadores”, de E. P. Thompson, uma obra marcante da História Social que investiga as transformações nas relações de classe e as tensões entre autoridade, lei e resistência popular na Inglaterra do século XVIII.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Bryan D. Palmer Professor Emérito da Trent University, Canadá
Por séculos, várias Primeiras Nações habitaram os territórios nas margens setentrionais do Lago Ontário, um dos Grandes Lagos que formam parte da fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos. A principal província industrial do Canadá, Ontário, e sua maior cidade, Toronto, surgiram em meio aos processos de colonização que consolidaram a dominação britânica no extremo norte das Américas, após a Guerra de Independência dos Estados Unidos. Essa colonização, enraizada em uma longa e contínua desapropriação dos Povos Indígenas, levou à criação do Alto Canadá (o antigo Ontário) pelo Ato Constitucional de 1791. A consolidação territorial do Estado-nação prosseguiu na década de 1860, com o Ato da América do Norte Britânica de 1867 e a criação do Domínio do Canadá.
Em um reconhecimento paternalista das alianças militares e comerciais dos Povos Indígenas com o seu “pai”, o monarca, houve um limitado reconhecimento do “território indígena” e dos direitos das Primeiras Nações ao seu uso. Uma série de tratados e transações vagas, conhecidas como “cessões” e “compras”, transferiu vastas extensões de terra para a Coroa Britânica, com os grupos indígenas deslocados para pequenas e isoladas reservas. Locais mais cobiçados, como a atual Toronto, assim como extensas áreas florestais, futuros sítios de riqueza mineral e terras potencialmente férteis para a agricultura, foram designados como “terras da Coroa”. Um chefe Mississauga queixou-se a um oficial inglês na década de 1820: “Vocês vieram como o vento que sopra através do Grande Lago. […] Nós os protegemos até se tornarem uma árvore poderosa que se espalhou por nossa Terra de Caça. Com seus galhos, agora vocês nos açoitam.”
Em 1830, William Allan, banqueiro mercantil e pilar da oligarquia aristocrática que governava o Alto Canadá, conhecida como Family Compact, comprou uma vasta extensão de terras da Coroa que se estendia do Lago Ontário até o que hoje é a região central de Toronto. Décadas mais tarde, seu filho George, então prefeito de Toronto e presidente da Sociedade de Horticultura da cidade, cedeu uma pequena parte desse lucrativo terreno ao município para uso público, o que incluiu a criação de jardins públicos, hoje abrigados em meia dúzia de estufas. Durante uma visita a Toronto em 1860, o Príncipe de Gales inaugurou oficialmente o Allan Garden, um parque urbano que ocupa dois grandes quarteirões da cidade.
Por mais de um século e meio, Allan Gardens não apenas cultivou uma vegetação exuberante. Ele também foi um lugar de protestos ligados a uma variedade de movimentos por justiça social, como, entre outros, as sufragistas do século XIX; as mobilizações de trabalhadores desempregados na década de 1930; as campanhas pela liberdade de expressão nos anos 1960; as marchas do orgulho gay nos anos 1970; e os protestos contra a pobreza durante a era do neoliberalismo, dos anos 1990 até o presente. Poucos espaços públicos no Canadá foram cenário de tantas, e tão diversas, manifestações de resistência e contestação.
Os Povos Indígenas, como não é de se surpreender, há muito utilizam o Allan Gardens como ponto de encontro; até hoje, cerimônias semanais de percussão e cura são realizadas no parque. Em 1995, o Conselho Histórico de Toronto ergueu uma placa em homenagem ao Dr. Oronhyatekha (Burning Cloud/Peter Martin), a segunda pessoa indígena no Canadá a obter um diploma de medicina e uma das primeiras e mais proeminentes vozes a se opor aos aspectos restritivos do Indian Act de 1876. Burning Cloud formou-se na Escola de Medicina de Toronto em 1886. Ele morava do outro lado da rua do Allan Gardens, onde praticava medicina ocidental convencional e prescrevia curas “indígenas”. Um Centro de Recursos para Mulheres Indígenas de Toronto funciona agora na mesma vizinhança. O parque tem sido recentemente palco de vigílias e protestos contra a epidemia de assassinatos e desaparecimentos de mulheres e meninas indígenas.
A associação do feminismo com o Allan Gardens remonta a 1892. O Conselho Nacional das Mulheres do Canadá, que defendia o direito ao voto, surgiu a partir de uma reunião no parque. Em 1896, a União Cristã Feminina pela Temperança conduziu um Parlamento Simulado no pavilhão do parque, construído em estilo oriental, semelhante aos pagodes asiáticos (torres ornamentais com vários telhados sobrepostos). Dra. Emily Stowe, a primeira médica a exercer a profissão no Canadá, presidiu o evento, que também contou com a participação de Lady Ishbel Aberdeen, esposa do Governador-Geral do Canadá. “Participantes abastadas”, observa a historiadora do sufrágio canadense Joan Sangster, só puderam assistir à encenação de teatro político satírico ao garantirem “bilhetes com antecedência”.
Mais barulhentas, e decididamente mais ousadas, foram as dyke marches [passeatas das sapatões] associadas à Semana do Orgulho de Toronto, sendo que a primeira marcha do Orgulho Gay da cidade partiu do Allan Gardens em 1974. O primeiro desfile lésbico ocorreu em 1996. Desde 2014, a dyke march passou a se encerrar no Allan Gardens, onde performances teatrais queer teriam feito as feministas do século XIX corarem. Lady Aberdeen talvez ficasse perplexa — senão indignada — com as Slutwalks [passeatas das “vagabundas’] que tiveram início no Allan Gardens entre 2013 e 2017, defendendo a descriminalização do trabalho sexual e a criação de um ambiente livre de estigmas para aqueles envolvidos em empregos eróticos.
À medida que o capitalismo se consolidava no início do século XX, os sindicatos cresceram em tamanho e influência. Organizações de esquerda, como o Partido Comunista e a Federação das Cooperativas do Commonwealth, surgiram. Elas exigiam uma alternativa ao ethos de “cada um por si” do sistema de lucro. Crises periódicas deixavam massas de trabalhadores desempregados. No Allan Gardens, manifestantes e policiais entraram em confronto repetidas vezes durante a Grande Depressão da década de 1930.
A Liga dos Trabalhadores Veteranos de Guerra (WESL), liderada pelos comunistas, ergueu sua faixa — “Heróis de 1914 – Mendigos em 1933” — no Allan Gardens, em protesto contra o desemprego, a brutalidade policial e a repressão à liberdade de expressão. Policiais a cavalo e de motocicleta avançaram contra a multidão de desempregados, que incluía mulheres da classe trabalhadora que deixaram seus carrinhos de bebê sob as árvores e enfrentaram a polícia em fúria.
Sob pressão de organizações como a WESL, a Liga Canadense de Defesa do Trabalho e o Conselho de Desempregados de Toronto, o Comitê de Parques Municipais designou oito parques locais — incluindo a legislatura provincial, o Queen’s Park — como abertos a discursos públicos e manifestações. No entanto, a legislação local continuava a proibir discursos no Allan Gardens, já então conhecido como ponto de encontro de trabalhadores insatisfeitos.
Em 1962, poetas radicais se rebelaram contra as restrições legais que limitavam os discursos públicos no Allan Gardens. O poeta laureado da esquerda canadense, Milton Acorn, liderou a resistência ao embargo da liberdade de expressão. Ele venceu, tanto no tribunal da opinião pública quanto no sistema de justiça. As leis de Toronto mudaram: poetas, oradores de rua e defensores da liberdade de expressão de todos os tipos puderam, a partir de então, usar o Allan Gardens como seu palco.
Com os pobres e marginalizados da sociedade atraídos para Allan Gardens, a polícia aproveitou a oportunidade para atacar os bodes expiatórios e suspeitos de sempre. As áreas residenciais ao redor do centro da cidade de Allan Gardens foram gentrificadas. As antigas pensões que atendiam moradores pobres, muitas vezes racializados, em especial torontonianos de origem caribenha, deram lugar a elegantes residências unifamiliares. Essa transformação urbana, no entanto, levou tempo. Para os negros que ainda viviam perto do parque nos anos 1990, alguns deles em situação de rua e dependentes de abrigos que continuavam a existir no bairro, o Allan Gardens tornou-se um espaço de encontro, convivência e de prática do futebol.
Uma operação policial no Allan Gardens, no verão de 1994, resultou em tratamento humilhante de 65 homens negros, que receberam o aviso de que, caso voltassem ao parque, seriam presos. Proprietários brancos abastados — defensores da emergente ideologia “Not In My Backyard” (“Não no meu quintal”) e articuladores de ativas associações de moradores locais — aplaudiram os policiais enquanto estes distribuíam 3.000 dólares em multas por vadiagem. Mas o Allan Gardens não poderia ser facilmente transformado em um espaço de repressão racista. Reforçados por aliados do movimento gay, ativistas do Black Lives Matter se reuniram no Allan Gardens em 2016. Sua mensagem — “I Am Not A Threat” (“Eu não sou uma ameaça”) — rememorava o vergonhoso perfilamento racial de jogadores de futebol imigrantes em 1994.
Na década de 1990, as crises do capitalismo precipitaram uma reação. O ataque bem-sucedido do neoliberalismo às organizações fundamentais de defesa da classe trabalhadora deixou os sindicatos enfraquecidos. Com o deslocamento do espectro político para a direita, organizações de esquerda há muito associadas ao anticapitalismo — e conhecidas por incentivar levantes militantes da classe trabalhadora — foram ficando em segundo plano. O protesto passou a se associar menos à classe trabalhadora organizada e aos movimentos e partidos tradicionais da esquerda radical.
Uma alternativa surgiu. A Coalizão de Ontário contra a Pobreza (OCAP) ganhou destaque sob o slogan “Lutar para vencer!” A OCAP apoiava os acampamentos vulneráveis no parque. O Allan Gardens foi defendido como um lugar seguro para o número crescente de pessoas pobres e em situação de rua em Toronto. Passeatas contra os governos provinciais frequentemente começavam no parque e percorriam o centro da cidade até a sede do governo em Queen’s Park.
Uma dessas manifestações explosivas culminou em um conflito com a polícia em 15 de junho de 2000. O inquérito registou ferimentos superficiais em cavalos da polícia, 42 policiais alegaram fraturas nas canelas e contusões no corpo, e um número semelhante de manifestantes foi preso, incluindo três dos principais organizadores da OCAP. As audiências judiciais envolvendo mais de 250 acusações criminais se prolongaram até 2002-03, restringindo severamente a capacidade da OCAP de defender os pobres, promover a necessidade de moradias acessíveis e prestar serviços e aconselhamento aos desfavorecidos que dependem de sua experiência e ajuda.
As faixas da OCAP muitas vezes pareciam saídas diretamente dos protestos da década de 1930: “Unidos comemos. Divididos passamos fome.” Quando o G-20 se reuniu em Ontário em 2010, ativistas antiglobalização se concentraram no Allan Gardens. John Clarke, da OCAP, denunciou a agenda de austeridade dos líderes do capitalismo global, proclamando: “Eles nos deram guerra, nós estamos devolvendo guerra a eles.”
Hoje a OCAP está em grande parte extinta, mas seu espírito, e o de seus antecessores militantes, permanece. Acampamentos de barracas de pessoas em situação de rua continuaram no Allan Gardens muito depois do fim da organização antipobreza. Muitos dos sem-teto eram indígenas.
As autoridades municipais de Toronto acabaram encontrando acomodação para muitas das pessoas que viviam no parque. Por enquanto, barracas de sem-teto não estão mais montadas no Allan Gardens. Mas uma mulher indígena ainda vive lá em um icônico teepee (tenda indígena), onde mantém uma fogueira sagrada. Forças de segurança privada patrulham o Allan Gardens, garantindo que não surjam acampamentos de pessoas em situação de rua em um parque que recentemente passou por extensas reformas em um pavilhão que as autoridades claramente querem transformar em atração para turistas e visitantes “respeitáveis”. Em toda Toronto, no entanto, a falta de moradia continua sendo uma questão central e preocupante, com muitas pessoas forçadas a viver em barrancos e outros espaços públicos, ou a depender de abrigos inadequados.
Em setembro de 2022, um festival de quatro dias de música, poesia, dança e cerimônia marcou a instalação artística de uma escultura de 27 painéis, com 7 metros de comprimento. A celebração e a composição criativa faziam parte de um projeto de longo prazo liderado pela programadora cultural e cineasta Rina Fraticelli e pelo fotógrafo e curador Schuster Gindin. Narrativas, representações artísticas, documentos e outros materiais culturais comemoraram os 130 anos de história do Allan Gardens. Fraticelli e Gindin buscaram reconhecer e fortalecer ainda mais o senso de comunidade local. Eles publicaram um volume ricamente ilustrado, Allan Gardens: People, Power & the Park. A obra ilumina como o Allan Gardens tem sido, há muito tempo, um espaço público onde as liberdades de associação e expressão são defendidas e preservadas, estabelecendo a continuidade da luta da classe trabalhadora, dos movimentos por justiça social e dos protestos indígenas sob o capitalismo e o colonialismo.
No Allan Gardens, um parque hortícola originado de um ato de expropriação colonial transformou-se em propriedade privatizada. Esse espaço público tornou-se um terreno contestado. Gerações de dissidentes reivindicaram direitos: de se reunir; de ser ouvidos; de pressionar por mudanças; de se libertar do Calcanhar de Ferro das autoridades e de seus gendarmes. Ao fazê-lo, militantes e todo tipo de pessoas insatisfeitas expressaram críticas a uma sociedade que justificava a desigualdade e racionalizava a opressão, a exploração e a repressão. As lutas de povos indígenas e racializados, de mulheres e minorias sexuais, e de trabalhadores — assalariados e não assalariados — marcaram a tranquilidade do parque. Criado como uma expressão das sensibilidades da elite, o Allan Gardens se transformou em algo diferente: um lembrete visível de que a supressão dos despossuídos nunca é fácil nem total. Em sua ressignificação, o parque passou a simbolizar as possibilidades de uma transformação socioeconômica mais ampla.
“Empregos, Justiça e Ação Climática, Protesto de 5 de julho de 2015, Allan Gardens”, do livro de Fraticelli e Gindin, p. 37.
Tradução: Larissa Farias
Para saber mais:
Bryan D. Palmer and Gaétan Héroux, with a foreward by Francis Fox Piven, Toronto’s Poor: A Rebellious History (Toronto: Between the Lines, 2016).
Donald B. Smith, “The Dispossession of the Missisauga Indians: A Missing Chapter in the Early History of Upper Canada,” Ontario History, 73 (June 1981), 67-87.
Joan Sangster, One Hundred Years of Struggle: The History of Women and the Vote in Canada (Vancouver: UBC Press, 2018).
Rina Fraticelli and Schuster Gindin, Allan Gardens: People, Power & the Park (Toronto: King’s Road Press, 2024).
Crédito da imagem de capa: “Manifestação da Liga dos Trabalhadores Veteranos de Guerra (WESL), liderada pelos comunistas, em 15 de agosto de 1933 no Allan Gardens, em protesto contra o desemprego”. Fonte: Livro Allan Gardens: People, Power & the Park.
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
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